DOS NOSSOS FILHOS


Khalil havia passado muito tempo naquela ilha. Náufrago, fora acolhido na aldeia e, desde ali, como sábio eremita, observava tudo o que se passava sobre a terra, debaixo do céu. Não dissera muitas palavras, mesmo porque acreditava-as vãs. Mas dentro de si a riqueza dos significados.

Entre o povo observava a vida da aldeia, seus movimentos e sentimentos. Um dia, do alto da montanha, estava construindo sua sabedoria através da observação, quando lá ao fundo, avistou, em alto mar, a nau que se aproximava. Eram os seus. Chegara a hora de partir. Invadiu-lhe um sentimento estranho. Ansiava por rever sua tripulação, navegar outros mares, mas iria abandonar um lugar que o acolhera com tanto carinho, respeitando seu silêncio.

Navegar é preciso, pensou. Já ouvia, ao longe, a voz dos marujos, o barulho das correntes: âncora jogada ao chão. O mesmo mar que o trouxera, agora o estava levando de volta. Naquele entardecer, o marejar das ondas, ao canto das gaivotas, prenunciava encontro e despedida, alegria e tristeza.

No derradeiro encontro Al Mustafá, o mago da aldeia, veio ter com Khalil. E, reunindo todo o povo, enquanto o sol se punha, lhe disse: "Você que veio pelos ventos e agora se vai; ficou conosco, bebeu nossa água, sentou-se a nossa mesa; E lá de cima dos montes nos observou calado. Fez parte de nós mas agora se vai, deixando-nos a alegria de tê-lo e a tristeza de perdê-lo. Preocupamo-nos com nosso labor, e você, ó sábio, com nosso interior. Agora que vais, DIGA-NOS! Profira as palavras guardadas, as lições cultivadas, revele os segredos, tantos que apreendeu. Com o mesmo carinho que te acolhemos, agora te ouvimos. Nossos ouvidos, tanto tempo arados pelo teu silêncio, anseia qual terra fértil a espera do semeador.

Então Khalil, olhando ao seu redor, sentiu todos ali e, dirigindo-se a Al Mustafá disse: "Terra abençoada do Povo de Orphalese. Guardaste-me e eu te guardei. Lanço-me agora, a outro mar: é chegada a hora da separação. A ausência produz a essência do que se foi. Devolvo, antes de partir, o que me permitireis saber. De que quereis que vos fale?" E ele respondeu: "Fale-nos de nossos filhos".

De olhar no horizonte, suspirou profundamente, e, em sintonia com o Universo, Khalil pronunciou estas palavras:

"’Vossos filhos não são vossos filhos. Vossos filhos são a ânsia da vida por si mesma’". Vossos filhos são como a flecha em que vós sois o arco. O arco dá direção e rumo. A flecha foi feita para ser impulsionada, remetida o mais longe possível, foi feita para voar e atingir o alvo. Deve ser empunhada com segurança e firmeza. Não deve ser retida, pois então perderá sua essência que é partir. Assim, sois ó pais. Por mais dolorido que seja, arremetei vossos filhos pela senda da vida. Dai-lhes direção e impulso. Depois deixai-os partir e viver. A segurança do arremesso não permitirá que se desviem. Não quereis reter vossos filhos para vós mesmos, pois reter é perecer. Não subjugueis vossos filhos aos caprichos de vossas desilusões. Não façais de vossos filhos a segunda vida de vossos desejos fracassados."

"Jamais esqueceis que, como arcos, ficarão no lugar do arremesso. Vossa família foi o berço escolhido por Deus, para a morada e cultivo daquela alma que tereis de arremessar. Após isso, se recolherão, Pai e Mãe, um para o outro. A sós, homem e mulher como no início. Mas não fiqueis tristes, sintais a alegria de dar. A árvore que retém, perece. Não vos preocupeis tanto com que mundo vosso filho encontrará, mas sim, que filho o mundo receberá. E isto vos reconfortará e glorificará.

E assim, Khalil foi cobrindo a tarde com sua sabedoria. E o povo dali não se arredava. Falou sobre o amor, a alegria, a felicidade a tristeza, desnudando o homem em seu interior. E extasiavam-se com sua sabedoria. Suas palavras traziam vida em abundância. Talhadas pelo silêncio de quem sabe observar, produziam sentido a todos como chuva no deserto. Nenhuma delas significava senão o que queria significar e não poderiam ser pronunciadas senão no momento em que o eram. Agora, antes de partir, devolvia o tesouro armazenado no íntimo do seu coração.

Já tarde o Capitão da nau, interrompendo-o, disse: "Mestre, devemos soltar amarras". Então Khalil compreendeu que as velas estavam inquietas e o vento não poderia esperar...

Deu um último olhar por onde vivera, contemplou o semblante de cada ser-ali, agradeceu em sua alma, e entrou silencioso na embarcação. E partiu.

*Paráfrase de O Profeta, em homenagem a Gibran Khalil Gibran. Filósofo - poeta que fez vida em muitos corações.


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