Da Nossa Consciência

O vermelho tinge o azul anil, como numa guerra sangrenta entre dois opostos e se derrama sobre a água do rio que desce preguiçosamente, tingindo-a de negrume: a noite se aproxima. O dia dá seus últimos suspiros antes de exalar, neste momento sublime em que, no horizonte, a terra se liga ao céu.

Ali, sentado à beira do rio, UM HOMEM medita.

É o instante em que tudo se cala, os pássaros procuram abrigo, os animais silenciam e o homem se recolhe. É este o momento que a natureza propicia ao homem para o encontro consigo mesmo. É o momento da procura da paz, do aconchego e da calmaria, que a cidade grande nos tenta roubar, arrastando-nos à corrida louca dos que andam sem sentido.

Aqui, neste quadro espetacular, em que a luz dá lugar às trevas, o homem é capaz de vislumbrar a finitude de tudo e uma além-vida. Compreende que está no palco e que, um dia, será retirado de cena, dando lugar a outro ator, também efêmero, passageiro... Sabe que não deve querer ser o centro, pois as palmas que hoje recebe não soarão mais no pós-túmulo. É consciente de suas horas, minutos e segundos, e não grita verdades que não é, pois toda a demagogia será desmascarada. Um homem consciente que condena as guerras fratricidas, que tiram o sangue daqueles que não a decretaram; que condena a riqueza que tira o pão, daqueles que não roubaram; que condena a mentira, que tira a voz daqueles que não puderam falar; que condena a falsa ideologia, que tira a motivação daqueles que não mais lutaram por si e por um mundo melhor...

O homem está ali, sentado à beira do rio: reflete a incerteza e a solidão de sua época, onde os valores humanos foram esvaziados; onde a prosa em roda de amigos foi substituída pela novela das oito, que além de denegrir ainda mais a claridade da vida, atira o fraco atrás das mercadorias que quer vender; onde a palavra foi substituída pelo papel, e o papel vai até o juiz e nem mais este consegue fazer honrar; onde o bom cerca sua casa enclausurando-se do mau; onde o fariseu domina os pensamentos; onde todos querem sentar-se no primeiro lugar, onde quem deve dizer, cala, e quem deve calar, diz.

O HOMEM, sentado, vê a pobreza e a fraqueza dos demais, que tentam demonstrar o contrário, agarrando-se à fragilidade das coisas, o que fortifica ainda mais sua porção animal; Vê a acomodação, o medo e a opressão; vê homens, bonitos só por fora, vê o homem contra o próprio homem....

Este homem medita, e transforma tudo isso num diálogo com seu DEUS, pois ele ainda tem coragem de rezar, de agradecer, e humildade de pedir. E este homem sabe que poderia enganar a todos, menos a Deus. Por isso, não engana os homens!

A escuridão continua emergindo mais e mais.... As trevas derrotam a luz, o negrume é quase total, e, o HOMEM sente medo. Medo pelos que têm consciência escura, pois têm como soberanos a maldade e a mesquinhez, que os torna menos-homens.

Mas ele tem ESPERANÇA: à noite se sucede o dia. E a claridade ofuscante do sol invadirá corpos e mentes, fecundando a alma, quando, então, se poderá, novamente, caminhar com segurança.

Assim é nossa consciência: a luta entre a luz e a escuridão, a verdade e a sujeira. Porém, feliz o homem, que, embora se ache fraco perante o mundo, seja servo fiel da bonança e da justiça; feliz do home que revê seus conceitos e suas atitudes diárias, feliz do que luta para tornar-se MAIS-HOMEM no dia-a-dia.

O HOMEM acaba dormindo sob a calmaria e o leve borbulhar das corredeiras do rio. Pode haver lixo em consciência, mas, certamente, não é o mesmo de ontem...

Nipacs Solrac


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